Já vi muita coisa nessa vida. Já vi homens virarem monstros por poder, já vi o ódio corroer sociedades, e já vi a esperança ser esmagada sob o peso da ganância. Mas nada me preparou para o que meus olhos viram hoje.
Em Luanda, as ruas não são mais ruas; são campos de batalha. O cheiro de pólvora e a fumaça de pneus queimados se misturam ao som dos gritos e das sirenes. Hoje, presenciei algo que vai assombrar meus pesadelos por muito tempo: uma mãe, um filho, e a tragédia que se abateu sobre eles. As imagens são um soco no estômago, um lembrete cruel de que, aqui, a vida tem um valor de mercado muito baixo. Vi a vida esvair de um inocente enquanto a fúria e o desespero de sua mãe se misturavam em um cenário dantesco. A brutalidade é tão banal que se torna a paisagem.
A polícia, que deveria ser a muralha da ordem, se transformou em um exército de ocupação, com as mãos sujas de sangue e a consciência vazia de remorso. O medo do povo, que deveria ser dirigido aos criminosos, agora se volta para aqueles que deveriam garantir sua segurança. Isso não é ordem; é opressão.
E a mídia? Onde estão os jornalistas, os fotógrafos, os correspondentes de guerra que deveriam dar voz a esse caos? A resposta é um silêncio ensurdecedor. O que está acontecendo aqui parece não existir para o resto do mundo, e isso é o que mais dói. O que a sociedade vive é varrido para debaixo do tapete, ignorado por uma imprensa que parece mais interessada em aplaudir o poder do que em expor a verdade. A mídia, que deveria ser o farol da verdade, se tornou a sombra da mentira.
O povo está no limite. Depois de anos de promessas vazias, de uma paz que nunca se concretizou, de uma vida que nunca realmente começou, o povo explodiu. O que acontece nas ruas não é vandalismo; é a fúria de quem não tem nada a perder. A revolta, que muitos chamam de "saques", é, na verdade, a voz de quem grita por sobrevivência.
Não se enganem. O que se vê aqui não é a sede por bens materiais, mas a sede por dignidade. É a busca desesperada por comida, por um futuro, por algo que lhes foi roubado. Depois de anos de opressão e de miséria, o povo não rouba porque quer; rouba porque precisa. A fúria é o único luxo que eles podem se dar.
É um paradoxo cruel. A paz, tão celebrada em 2002, nunca chegou de fato. O povo conhece a palavra, mas não sabe o que ela significa. Eles não têm o básico, e sem o básico, a paz é apenas uma ilusão. O ódio está crescendo, e o desespero se tornou uma epidemia.
Me pergunto se este é o novo normal. Se é assim que a sociedade angolana vai continuar vivendo. Ou se, finalmente, as feridas se abriram de tal forma que a cura será inevitável. Só o tempo dirá, e a história, como sempre, será escrita com o sangue e as lágrimas dos inocentes.
