Em ato de desespero e protesto, dezenas de corpos encontrados em área de mata após a ação mais letal da história do Rio são levados por populares para reconhecimento em praça pública.
Em um cenário de profunda comoção e revolta, moradores do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, protagonizaram um ato desesperado na madrugada desta quarta-feira (29/10) ao levar ao menos 40 corpos para a Praça São Lucas, no centro da comunidade.
A ação ocorreu um dia após a região – que abrange os Complexos do Alemão e da Penha – ser palco da **operação policial mais letal da história do estado**, que resultou na morte de dezenas de pessoas. O balanço oficial da operação, que se concentrou na terça-feira (28), apontava inicialmente para 64 mortes (60 suspeitos e 4 policiais). No entanto, os corpos levados à praça por populares, encontrados na área de mata entre as comunidades, não faziam parte dessa contagem oficial, indicando um número ainda maior de vítimas.
Os corpos foram dispostos, enfileirados, no centro da praça, cercados por familiares e amigos que, em desespero e diante da ausência de informações oficiais sobre as vítimas, tentavam realizar o reconhecimento.
Testemunhas relataram que alguns cadáveres apresentavam marcas de t1ros, perfurações por f4ca nas costas e ferimentos nas pernas. Ativistas e moradores que auxiliaram na remoção dos corpos da mata classificaram a cena como inédita em termos de brutalidade e violência, mesmo para uma região historicamente marcada por confrontos.
O objetivo dos moradores ao levar os corpos para a praça foi justamente facilitar o reconhecimento, uma vez que o acesso aos órgãos oficiais e às informações era dificultado. A cena de luto público se tornou um grito por justiça e por um posicionamento do poder público.
Mais cedo, em uma tentativa de socorro ou de obter a identificação imediata, moradores chegaram a transportar cerca de seis corpos em uma Kombi, em alta velocidade, até o Hospital Estadual Getúlio Vargas, deixando o local rapidamente.
A Defensoria Pública do Rio de Janeiro e defensores de direitos humanos classificaram a operação como "o maior massacre da história do Rio de Janeiro" e chegaram a pedir à Comissão Interamericana de Direitos Humanos a presença de interventores e peritos internacionais para acompanhar a situação e investigar as circunstâncias das mortes.
A megaoperação, batizada de **"Operação Contenção"** e mobilizando cerca de 2.500 policiais civis e militares, tinha como objetivo combater a expansão territorial de uma facção criminosa e prender lideranças. A ação resultou em um cenário de guerra, com escolas e serviços públicos afetados, vias importantes do Rio interditadas e retaliações de criminosos. A descoberta e exposição dos corpos na Praça São Lucas, no entanto, move o foco da operação policial para as graves consequências humanitárias e o drama das famílias das comunidades impactadas.
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